Tradução da Entrevista da Revista HARDY – Jun/2017 – 1ª Parte

Conforme publicamos aqui anteriormente, Adam Lambert fez parte da segunda edição da Revista HARDY – intitulada “We Are Family” – idealizada e produzida pelo seu amigo Joey Gray, destinada ao público LGBTQ. A entrevista foi publicada em 2 partes, confira a seguir a 1ª parte:

Chá com a Rainha

Dez anos atrás, eu entrei em um clube em Hollywood e conheci uma das pessoas mais engraçadas, mais talentosas e generosas que tive o prazer de encontrar. Mas chega de falar sobre o bartender. Aqui está a PRIMEIRA PARTE de uma conversa sincera com meu Ídolo, minha Rainha, meu Amigo: o primeiro e único ADAM LAMBERT.

JG: Vamos mergulhar de cabeça: quantos anos você tinha quando o momento “oficial” de se assumir para sua família aconteceu?
AL: Dezoito, eu acho.

Seus pais te apoiam muito. Isso tornou mais fácil?
Sim. Mas eu me lembro de dizer à minha mãe: “por que você não me perguntou antes”, e ela responder, “Eu não sei, eu recebi conselhos para não perguntar.” Ela realmente foi a um centro LGBT em San Diego alguns anos antes, enquanto eu estava no colegial e perguntou, “eu deveria perguntar a ele sobre isso?” e eles disseram, “deixe que ele venha até você.”

Eu adoro a história de como você se assumiu para o seu irmão, também.
Isso foi mais ou menos na mesma época, porque foi como se eu estivesse me assumindo para a minha família inteira. Meu irmão estava meio que passando por uma faze angustiada nessa época então, quando nós conversamos, eu me lembro de ir a uma festa de família, algum tempo depois e ele estava muito mais amigável e animado comigo. Eu falei, “Oh, você está diferente” e ele disse: “Bom, eu sinto como se estivesse falando com o seu verdadeiro eu.” Eu perguntei a ele se ele achava que eu não estava sendo verdadeiro antes e ele respondeu: “Não, você estava, mas você estava escondendo alguma coisa, você não estava sendo honesto. Parece que agora você está sendo realmente você.” Foi interessante ter um membro da família dizer: agora você está sendo honesto e agora eu me sinto mais confortável com você. Porque, sabe, se você sabe que alguém está mentindo ou escondendo alguma coisa de você, é estranho, é uma energia esquisita. Foi mais um problema comigo. Eu não estava pronto para assumir isso como meu. Mesmo que eu já estivesse no meio do caminho. Eu não mudava muito meu comportamento para fazer as pessoas pensarem diferente. Não é como se eu tivesse uma namorada ou dissesse coisas como “E aí, cara!” Mas eu estava genuinamente confuso. Eu sentia que, eu sabia que tinha os impulsos; eu sabia que me sentia atraído por homens. Mas eu sentia que ainda estava trabalhando isso. Isso significa que eu não me sinto atraído por mulheres? Eu estou programado dessa forma? Eu não sabia. Eu não entendia se me sentir excitado por homens significava que eu não conseguiria encontrar uma mulher e ter uma conexão emocional com ela. Eu não sabia.

Totalmente. E você pode demorar a vida inteira para descobrir isso.
Bem, eu meio que descobri, agora. Eu não vou descartar isso 100%, mas muito provavelmente não vai acontecer. Ha-ha! Mas sabe, é isso o que eu quero dizer, quando eu vejo jovens que são pressionados a se assumir, eles podem não estar prontos porque talvez eles ainda não tenham respondido todas as suas perguntas. É um processo. Entender quem você é, é um processo. A coisa da identidade é complicada, e não só com sexualidade, mas entender sua identidade é muito abstrato – especialmente para os adolescentes. Então, quando você está nos seus vinte anos, você é uma pessoa diferente a cada seis meses. Você realmente é e isso é fabuloso, a exploração é fabulosa, você deveria celebrá-la e você deveria mergulhar nela de todo o coração. Há certas coisas que o mundo lá fora espera que seja preto no branco, escrito em pedra, entendido e declarado e é tipo: nem todo mundo está pronto para fazer essa declaração.

Eu ainda não consigo esquecer o quão fofo foi sua mãe ter ido ao centro LGBT procurar conselhos e dando a você esse espaço e tempo.
Meus pais são ótimos, eles são liberais e não somos uma família religiosa, em parte eu acho que por isso foi tão fácil. Eles também têm a mente muito aberta. Do lado da minha mãe, um irmão e uma irmã dela moraram no Castro da metade para o final da década de 70. Eles são hétero, mas têm muitos amigos gays. Eu me lembro de ser realmente obcecado pelos álbuns de fotos dos meus pais, quando era criança. Eu estava tão interessado em vê-los mais novos, e qual era a aparência deles, a vibe, como era o cabelo e as roupas e onde eles iam. Eu estava ficando muito obcecado com os anos setenta, o que nunca realmente passou. Eu me lembro de encontrar em um dos álbuns de fotos da minha mãe, todas essas fotos da parada do orgulho gay em São Francisco. Eu provavelmente tinha 14 anos, olhando para as fotos de todas aquelas drag queens e pensando uh! Ela tinha uma câmera Super 8 naquela época e ela tinha essa filmagem dela dançando com um monte de drag queens na rua, eu não entendia isso muito bem. Eu não entendia que elas eram drag queens. Eu achava que era um monte de gente usando fantasias. Eu provavelmente era mais novo do que 14 quando eu vi isso.

Falando nos anos 70, até recentemente eu não sabia que Nile Rodgers compôs “We Are Family” para Sister Sledge.
Nile Rodgers é enorme. Ele compôs músicas famosíssimas.

Lembra daquela cena no final de-
“A Gaiola das Loucas”? “A Gaiola das Loucas” é ótimo! E para aqueles que não sabem, esse foi baseado em um filme muito mais antigo chamado “La Cage aux Folles”. Antes disso, era uma peça teatral e houve um musical. Existem tantas coisas que se você pesquisar a fundo, vão te fazer pensar: Oh! Então foi isso que originou tudo! Eu adoro isso, porque eu vim do teatro e sempre há o filme e antes havia o musical e todo mundo diz “Oh, aquele filme incrível”, e eu fico tipo “Não, não, não… vamos começar pelo musical!”

Oh, com certeza. Eu me lembro de assistir “A Gaiola das Loucas” pela primeira vez e ficar tão apaixonado pela performance de Nathan Lane, finalmente velho o bastante para apreciar o drag. Havia uma foto na minha casa quando eu era criança, do meu pai dançando com um homem vestido de mulher, em um navio de cruzeiro. Foi a primeira vez que eu vi uma drag queen, mas eu também não entendi na época.
Bem, mesmo antes, eu me lembro de ser bem pequeno – eu era muito novo – era Halloween e meus pais deram uma festa na nossa casa.
Eu me lembro de ouvir todo o barulho, acordar e descer as escadas e meu pai estava vestido de drag, como um cowboy prateado! Ele estava fazendo alguma coisa onde ele tinha, tipo, cachos e gloss labial. Eu acho que minha mãe tinha feito a maquiagem dele e ele estava usando um robe de seda. Eu fiquei tão assustado, porque eu estava confuso. Eu não conseguia entender que aquele era meu pai. Eu me lembro de ficar muito chocado com aquilo. E então, depois, eu acho que no colegial – você sabe, por toda a minha infância, especialmente por eu ser do teatro, eu só queria brincar de me fantasiar e me maquiar e mudar meu rosto. Todo ano, no Halloween eu virava um personagem de terror diferente – um lobisomem, uma múmia, um vampiro – o que não mudou nada, na verdade! Ainda é assim. Então, eu estava me interessando por maquiagem e coisas do tipo e eu ia brincar com a maquiagem da minha mãe e ela dizia, “não toque nas minhas coisas, eu não me importo que você esteja brincando com maquiagem, mas essas coisas são minhas!”

Eu adoro isso! A maioria de nós estava escondendo isso de nossas mães e ela tipo – não, você está estragando as minhas coisas! Isso é incrível.
E então, eu falei, “bem, então você tem que comprar um kit de maquiagem para mim!” Então nós saímos e compramos um kit de maquiagem do Ben Nye, pela primeira vez. Eu tinha um livro e eu aprendi a fazer a maquiagem de velho, todas as maquiagens de ópera e de teatro e os efeitos especiais e então comecei a mexer com látex. Eu era muito nerd. Tinha dias que eu chegava em casa da escola e isso era o que eu fazia no espelho: meu rosto.

E isso ficou com você no decorrer da sua vida!
Nada mudou! Agora eu só faço maquiagem se tiver um evento para ir, eu não faço mais para passar o tempo. Mas eu ganhei muita prática. Eu era uma criança meio tonta. Era isso o que eu fazia. Eu gostava de maquiagem e eu comecei a maquiar outras pessoas. Se havia uma garota bonita, eu dizia, “Eu quero fazer o seu rosto!” E era divertido para mim. E era uma forma de me conectar, porque eu acho que eu era um pouco socialmente esquisito – principalmente no ensino fundamental. Eu tinha alguns amigos no colegial e eventualmente, se tornou uma experiência social confortável e realmente agradável, mas o ensino fundamental não foi tão bom. É nessa época que todos começam a ficar maldosos.

Ah é, eu sofri mais bullying no ensino fundamental do que no colegial.
No colegial você tem clubes e atividades para as quais você pode gravitar, e então você encontra a sua turma. Nós não tínhamos isso no fundamental. Bom, eu me lembro de ir – eu tinha 17 anos – em uma festa de aniversário em um clube em San Diego, chamado Lips, era um restaurante onde as garçonetes eram drag queens. Eu fiquei fascinado e também nervoso por querer ir. Eu não tinha me assumido ainda, então eu sabia que ia ser uma dica e tanto. Mas foi tipo, “Eu ainda quero ir nesse restaurante”, e eu levei alguns amigos comigo e eu adorei.

Quando eu estava no colegial, eu ouvi sobre um lugar em Nova Iorque chamado Lucky Cheng’s na 1st, e eu me lembro de insistir em sair para uma noite na cidade com a minha namorada e alguns amigos. Era um restaurante de drag, com garçonetes drag queens, também.
Me surpreende que eles não tenham algo assim aqui, agora. Hamburger Mary’s… não é isso. É, mas não é. Elas não estão servindo as mesas em drag. Mas também, tenho certeza de que não é glamouroso estar totalmente montada e ter que, tipo, carregar pratos e coisas assim. Por outro lado, eu aposto que a pessoa ganharia muito mais gorjetas.

Qual foi o primeiro bar gay que você foi?
O primeiro de todos? Provavelmente The Abbey. Eu também costumava ir muito ao Fiesta Cantina, porque eles tinham karaoquê e os drinques eram baratos.

Você cantava muito lá?
Era assim que eu transava, por um tempo, “Oh, espere um pouco, talvez se eu subir lá e cantar essa música muito bem, todos estarão olhando e então se tiver alguém bonito, eu posso puxar conversa – vai fazer metade do trabalho pra mim!” Não é muito diferente agora.

Ha! Falando em drag queens e levar alguém pra casa em bares gay, você não conheceu Sauli (seu ex), em um bar gay, por causa de uma drag queen?
Sim, eu tinha visitado a Finlândia tipo seis meses antes, fazendo minha primeira turnê de publicidade lá e fui a um evento onde eu conheci essa drag queen incrível chamada Crystal. Ela era fabulosa. Eu voltei àquele bar quando estava em turnê, e uma noite quando eu estava de saída eu esbarrei na pessoa que viria a ser meu namorado por uns dois anos. Ele meio que olhou para Crystal basicamente perguntando “Isso é bom? Eu deveria ou não deveria?” E Crystal foi tipo, sim!

Drag queens ao resgate!
Mudando vidas e guiando as crianças! Na verdade, quando eu era mais novo, eu tive uma mãe drag. Mesmo que eu não estivesse de fato me montando, ele foi minha mãe drag de muitas maneiras.

Quem era? Como vocês se conheceram?
Mz. Alanna. Nós nos conhecemos no musical “Os Dez Mandamentos”. Nós podemos ter nos conhecido antes disso, através de alguns amigos, mas então eu estava trabalhando com ele e nós nos tornamos muito bons amigos. Eu estava explorando quem eu era como artista e como eu disse antes, mesmo que eu não estivesse fazendo drag, eu ainda estava empetecando minha cara e usando umas coisas estranhas. Eu aprendi muito com ele. Foi muito mais, sabe, não era como se ele me ensinasse a fazer maquiagem – eu sabia como me vestir e tudo mais, foi mais como me tornar um performer mais forte e ficar mais confortável na minha própria pele. Foi bom para mim, ter essa sabedoria. Foi importante. Era uma energia de irmão mais velho, também. Mas a ideia de uma mãe drag funcionava pra mim.

O que “família escolhida” significava para você?
Bom, vindo do teatro, você está fazendo um show com um coletivo de atores e você está nos bastidores, vocês estão juntos nos ensaios todos os dias, e isso se torna um tipo de família temporária. Eu cresci com isso, desde que eu era criança, fazendo peças e musicais a cada poucos meses. Então, quando eu me mudei para LA depois da escola, eu ansiava por isso – eu precisava disso. Então, eu tinha amigos que eu conheci fazendo shows que se tornaram minha família estendida. Era ali que minha vida social se desenvolvia e de onde amizades fortes vieram.

É incrível como muitos desses relacionamentos do teatro ainda estão presentes na sua vida.
Eu conheci Terrance [Spencer] fazendo a produção de “Wicked” em LA e nós nos tornamos bons amigos. Então eu conheci o amigo dele Johnny [Rice] que eu tinha encontrado muito tempo antes, por causa de outro trabalho. Quando eu estava no coro de “Wicked”, eu comecei a mexer com bandas de garagem e a compor minha própria música – essa foi outra coisa que Mz. Alanna realmente me encorajou a fazer: criar e fazer música. Eu finalmente consegui que uma faixa em que eu estava trabalhando fosse mixada e que soava decentemente. Então eu consegui que um DJ fizesse um remix e nós três fomos a alguns bares gay ao redor de West Hollywood, e Moustache Mondays no centro, e fizemos performances dela. Isso foi há dez anos.

Então, quando o Idol aconteceu e tudo funcionou, foi realmente muito importante para mim ter dançarinos e essas outras energias no palco, porque isso me ajuda quando eu tenho que representar tipos diferentes de pessoas. Mas também foi para ter amigos, para ter família enquanto eu estava fazendo tudo isso. Eu tinha minha amiga Brooke, que é outra das minhas amigas do teatro, coreografando e co-dirigindo a turnê. Ter essas pessoas comigo nessa jornada foi bom porque eles me conheceram antes da fama – eles me conheceram antes do trem deixar a estação, por assim dizer. Então, continuou real. Tipo, eles vão perceber se eu estiver agindo como um idiota, sabe?

Você estava ciente disso, na época? Ou está mais claro agora, em retrospectiva, como algo que te deu um centro e te sustentou?
De certa forma, eu sabia. E pensava, “É, eu tenho que ter certeza de estar cercado por pessoas que vão me dizer a verdade.” E no final das contas, eu queria estar com meus amigos. Quando eu comecei a fazer promoção, depois do Idol e caminhando para o meu primeiro single, é muito trabalho e exige muito foco. Você dá uma entrevista, então você viaja para outra cidade, e você vai naquela estação de radio… É tudo ótimo, porque era o meu sonho, mas foi bastante tempo passado sozinho e eu comecei a me sentir solitário. Então foi importante para mim, em um nível emocional e pessoal, ter pessoas que eu amava. E também eu podia parar de pensar em mim mesmo, nem que fosse por cinco minutos! Tipo, fulano e fulano estão tendo um problema no relacionamento e eu quero estar lá para eles, também.

E ele está. Nessa década em que eu o conheço, através de todo o brilho e glamour, mesmo se ele estiver em turnê a meio mundo de distância ou do outro lado da cidade, eu posso dizer honestamente que Adam é um dos amigos mais constantes e preocupados que eu já tive. E merda, a vadia sabe cantar! Para a SEGUNDA PARTE da nossa conversa, com mais chá de drag, a indústria da música, e muitas referências queer para você mergulhar fundo no YouTube, dê uma olhada em www.hardzyne.com

Autoria do Post: Josy Loos
Tradução: Stefani Banhete
Fonte: @ScorpioBert

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One Comment

  1. Otima entrevista! Adorei★★★★★

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